⏱️ Tempo estimado de leitura: 5 minuto(s) de leitura
Você já reparou como a palavra do momento no esporte de endurance deixou de ser “saúde” e passou a ser “otimização”?
A gente acorda antes do sol nascer, cumpre planilhas exaustivas, equilibra trabalho, família e treinos, e ainda sente uma culpa enorme se o pace do garmin não bater com a expectativa. Outro dia, logo após cruzar a linha de chegada de um Ironman 70.3, eu me deparei com o meu próprio esgotamento. Quem faz provas de longa distância sabe: o corpo pede tempo, descanso e recuperação. A fisiologia real tem um ritmo próprio que exige paciência.
Mas, conversando no pós-prova sobre como tem gente emendando ciclos pesados sem nunca desacelerar, uma amiga né disse: “Você tá sendo ingênua. Para manter essa constância e esse rendimento o ano inteiro, essa galera tá dopada.”
A resposta veio como um balde de água fria e me fez uma provocação incômoda: quando foi que a gente aceitou que o corpo humano saudável não é mais suficiente?
Para entender por que a trapaça química se espalhou pelo esporte amador, a gente precisa olhar para além do caráter individual de quem usa. Nós estamos imersos no que o sociólogo Nikolas Rose chama de era da medicalização da vida e da otimização de si.
Se antigamente a medicina e a suplementação serviam para tratar patologias e restaurar a saúde de um corpo doente, hoje a lógica virou do avesso. Usamos a química e a tecnologia para “melhorar” o que já é saudável. Criamos o hábito de olhar para a nossa própria fisiologia não como uma casa que habitamos, mas como um motor que precisa ser tunado a qualquer custo.
Quando essa lógica da otimização domina, o cansaço legítimo — que deveria ser lido como um sinal inteligente do organismo pedindo pausa — passa a ser interpretado como um “defeito de fabricação”. Uma falha química a ser corrigida na farmácia de manipulação. A gente parou de ouvir o corpo para responder apenas aos números da tela.
É exatamente aqui que a psicanálise nos ajuda a virar a chave desse debate. Para a psicanálise, o ser humano é estruturalmente limitado. Nós envelhecemos, oscilamos, temos dias ruins e esbarramos diariamente em um teto biológico. Aceitar esses limites não é fraqueza; é o que nos mantém psiquicamente saudáveis, maduros e integrados. O problema é que a sociedade do desempenho sopra o tempo todo no nosso ouvido a ilusão de que “quem quer, dá um jeito” e que “o único limite é a sua mente”.
Diante dessa cobrança sufocante por alta performance em todas as áreas da vida, a substância dopante entra como uma verdadeira prótese psíquica. Ela é usada para desmentir a nossa condição biológica. É a tentativa de sustentar uma imagem irreal de si mesmo: a fantasia de um atleta imbatível, que não sente dor, não falha e recupera o corpo num piscar de olhos.
O doping no meio amador raramente começa com alguém decidindo virar um trapaceiro consciente. Ele começa nessa incapacidade de suportar a limitação do próprio corpo e na busca por um atalho que apague a fadiga.
Mas quando um tempo recorde na prova ou um troféu na categoria vem empurrado por uma otimização sintética, de quem é essa conquista de verdade? O que sobra do seu mérito quando a química faz o trabalho que o seu esforço real não daria conta de entregar?
Para quem acorda de madrugada, cumpre as planilhas com honestidade e tem orgulho de treinar limpo, ver a banalização de atalhos químicos no esporte amador gera uma indignação justa. É revoltante ver o esforço real ser medido na mesma régua de quem usa trapaça mascarada de “ajuste metabólico”. Só que defender o jogo limpo vai muito além de apontar o dedo. É uma postura ética perante a sua própria vida.
Evoluir de verdade no endurance dá trabalho. Leva tempo. Exige maturidade para entender que os altos e baixos fazem parte do jogo. Respeitar o tempo que os seus tendões, músculos e mente levam para assimilar um ciclo de treinos é o que dá um peso genuíno para a medalha que colocam no seu pescoço.
A beleza desse esporte não está em ser imbatível ou otimizado até o último fio de cabelo; está em descobrir até onde a sua fisiologia real consegue te levar, com todas as suas potências e limitações.
Quando você alinhar na próxima largada, lembre-se de que o seu valor como pessoa não cabe em um gráfico do relógio — e muito menos em uma performance fabricada. Afinal, o seu treino hoje tem sido uma fonte de liberdade e saúde ou virou só mais uma arena onde você se sente obrigado a performar um corpo que não pode falhar?
Texto escrito por: Paula Figueira, psicologa esportiva, psicanalista e triatleta amadora.

