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A prescrição de carboidratos durante o exercício deve considerar não apenas a quantidade ingerida, mas sobretudo a cinética de digestão, esvaziamento gástrico, absorção intestinal e taxa de oxidação exógena, especialmente em exercícios realizados em intensidades moderadas a elevadas.
É comum prescritores cederem ao desejo do atleta para ingerir fontes sólidas de carboidrato pela alegação de ser “mais natural”, contudo o nutricionista deve orientar que a saúde e boa absorção do carboidrato também depende da forma em que se é ingerido, já que, em altas intensidades ou sem o treino prévio do intestino “training the gut”, é possível que o atleta tenha desconforto gastrointestinal que pode, inclusive, auxiliar para que o intestino desregule não somente durante o exercício, como após a ele, prejudicando a saúde geral do atleta.
Durante exercícios acima de ~60–70% do VO₂máx, ocorre uma redução significativa do fluxo sanguíneo esplâncnico (até 80%), comprometendo diretamente a função gastrointestinal (REHRER; MEESTERS; BROUNS, 1992). Esse fenômeno impacta a eficiência de substratos que dependem de digestão prévia, como alimentos sólidos.
Fontes sólidas de carboidrato, como pães, rapadura ou preparações mistas, apresentam limitações fisiológicas importantes:
- maior necessidade de digestão mecânica e enzimática
- maior tempo de permanência gástrica
- atraso no esvaziamento gástrico
- retardo na entrega do substrato ao intestino delgado
Esse último ponto é central:
em intensidades mais altas, a limitação passa a ser não apenas a absorção, mas a chegada do carboidrato ao sítio de absorção.
O esvaziamento gástrico é influenciado por fatores como intensidade do exercício, osmolaridade e composição da refeição, sendo mais lento na presença de sólidos (COSTILL; SALTIN, 1974; REHRER, 1990). Assim, o carboidrato pode permanecer no estômago por mais tempo, reduzindo sua disponibilidade energética imediata.
Em contrapartida, a ingestão de carboidratos em solução contendo múltiplos transportadores — especialmente nas proporções 2:1 ou 1:0,8 (glicose:frutose) — apresenta vantagens metabólicas bem estabelecidas.
Estudos conduzidos por Asker Jeukendrup demonstram que a combinação de glicose e frutose permite:
- utilização simultânea dos transportadores intestinais SGLT1 (glicose) e GLUT5 (frutose)
- aumento da taxa de absorção intestinal total
- elevação da taxa de oxidação de carboidrato exógeno para valores entre ~90–120 g/h (JEUKENDRUP; JENTJENS, 2000; JEUKENDRUP, 2014)
Além disso, soluções líquidas ou géis:
- exigem menor digestão prévia
- apresentam esvaziamento gástrico mais rápido
- reduzem a sobrecarga gastrointestinal
Do ponto de vista metabólico, isso resulta em:
- maior disponibilidade de glicose plasmática
- maior taxa de oxidação de carboidratos exógenos
- menor utilização precoce do glicogênio muscular
- melhor manutenção da intensidade do exercício
Outro aspecto relevante é a tolerância gastrointestinal. A ingestão de alimentos sólidos em intensidades mais elevadas está associada a maior incidência de desconforto gastrointestinal, o que pode comprometer a ingestão voluntária de carboidratos (COSTA et al., 2017).
Portanto, embora alimentos sólidos possam ser utilizados em contextos específicos — como exercícios de baixa intensidade ou estratégias de adaptação gastrointestinal — sua aplicação em exercícios mais intensos é limitada pela interação entre digestão, esvaziamento gástrico e absorção.
Assim, estratégias com múltiplos transportadores não apenas aumentam a absorção, mas principalmente:
otimizam a disponibilidade energética no tempo compatível com a demanda metabólica do exercício.
Referências (ABNT):
COSTA, Ricardo J. S. et al. Systematic review: exercise-induced gastrointestinal syndrome—implications for health and intestinal disease. Alimentary Pharmacology & Therapeutics, v. 46, n. 3, p. 246–265, 2017.
COSTILL, David L.; SALTIN, Bengt. Factors limiting gastric emptying during rest and exercise. Journal of Applied Physiology, v. 37, n. 5, p. 679–683, 1974.
JEUKENDRUP, Asker E. A step towards personalized sports nutrition: carbohydrate intake during exercise. Sports Medicine, v. 44, supl. 1, p. S25–S33, 2014.
JEUKENDRUP, Asker E.; JENTJENS, Roy. Oxidation of carbohydrate feedings during prolonged exercise: current thoughts, guidelines and directions for future research. Sports Medicine, v. 29, n. 6, p. 407–424, 2000.
REHRER, Nico J. et al. Gastric emptying with repeated drinking during running and bicycling. International Journal of Sports Medicine, v. 11, n. 3, p. 238–243, 1990.
REHRER, Nico J.; MEESTERS, Edward J.; BROUNS, Fred. Exercise and gastrointestinal function. Sports Medicine, v. 14, n. 4, p. 242–258, 1992.
Texto escrito por Juliana Maciel – Nutricionista | Especializada em nutrição e fisiologia no esporte | Fitoterapia Esportiva | Pós graduanda em neurociência e breathwork

