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Julho, pra mim, é o mês em que eu tiro um tempo nas minhas manhãs e sento no sofá, às vezes pedalando no rolo, e até preparando o almoço e acompanho, com o coração acelerado, o Tour de France. Mais do que uma competição de ciclismo, o Tour é um espetáculo sobre corpo, mente, estratégia, resistência e emoção.
Sou fã de carteirinha de dois nomes que dominam a cena do ciclismo na atualidade: Tadej Pogačar e Jonas Vingegaard. A rivalidade entre eles tem sido uma das mais emocionantes dos últimos tempos — competitiva, intensa, mas respeitosa. E o mais interessante é que, embora eles estejam lado a lado nas conquistas, cada um representa um tipo diferente de atleta. Pogačar parece ser feito de aço: explosivo, técnico, enigmático. Jonas é um pouco mais contido, mais estratégico, mais discreto. Mas na temporada passada do Tour, onde podemos acompanhar um recorte dos bastidores na série documental da Netflix – Tour de France “au coeur du peloton”, ele me tocou de um jeito diferente. Me vi profundamente impactada por algo que ultrapassou qualquer performance na montanha: a coragem` de mostrar fragilidade.
Em abril de 2024, Jonas sofreu um acidente gravíssimo no País Basco. Ficou dias hospitalizado, um susto enorme — pra ele, pra sua equipe e pra todo mundo que acompanha o ciclismo profissional. Ele teve uma recuperação surpreendente: pouco mais de um mês depois do acidente, já estava pedalando novamente. É impressionante o que o corpo de um atleta de elite pode fazer, mas como psicóloga, eu não consigo deixar de pensar no lado emocional da coisa: o trauma, o medo de cair de novo, a dúvida sobre voltar a ser competitivo. Essa lesão não cicatriza com fisioterapia!
Na série da Netflix que acompanha o Tour, Vingegaard aparece em momentos que, pra mim, valem mais do que vestir le maillot jaune. Ele fala abertamente sobre o medo, sobre a insegurança nas descidas e em terrenos muito técnicos. E aí ele diz algo que me marcou profundamente:
“Se fosse há 20 anos, eu jamais mostraria essa fragilidade.”
Essa frase diz tanto! Diz sobre o que se esperava — e ainda se espera — de atletas de alto rendimento: perfeição, controle emocional, resiliência sem rachaduras. Mas também diz sobre uma nova era no esporte, onde mostrar vulnerabilidade não é fraqueza, é força.
Três meses depois de achar que poderia morrer, ele cruzou a linha de chegada como vencedor. Foi recebido com abraços e aplausos pela equipe, visivelmente emocionado. Logo depois, reencontrou sua esposa e a filha pequena, e naquele instante, ficou evidente que sua força não vinha só do desejo de competir. Vinha de um lugar mais íntimo, mais profundo: uma motivação intrínseca, movida pelo vínculo, pelo afeto, pela vontade de estar ali por inteiro — não apenas para vencer, mas para viver o que realmente importa com quem importa. É essa motivação que sustenta os grandes atletas quando a dor aperta, quando o medo aparece, quando a dúvida vem.
Em esportes de endurance como o ciclismo e o triathlom a gente fala muito sobre resistência. Sobre treinar o corpo, construir base, subir FTP, manter a cadência. Mas será que a gente fala o suficiente sobre o que se passa dentro de nossas cabeças e de nossos corações? Sobre o medo de não dar conta, o impacto emocional de uma lesão, o buraco que fica depois de uma prova ruim ou de uma interrupção forçada no ciclo de treinos?
A história do Vingegaard me fez pensar — mais uma vez — sobre a importância de dar espaço pra saúde mental dentro da lógica da performance. E não falo isso só como psicóloga que já acompanhou muitos atletas que passaram por isso. Mas também como alguém que já teve que pausar treinos por lesão, já lidou com o medo de voltar, já se cobrou mais do que devia e precisou reavaliar suas próprias metas. Óbvio que bem longe da experiência de um atleta do Tour de France. Mas reconhecer o medo, aceitar a pausa, contar com apoio, faz parte do processo. É isso que constrói uma carreira e uma vida esportiva mais duradoura e com mais sentido.
Pogačar venceu o Tour de 2024. E segue sendo, talvez, o maior de todos os tempos. Jonas foi vice-campeão, mesmo depois de tudo passar por tudo isso, e ainda conseguiu vencer uma etapa dura. Os dois são incríveis, mas nessa temporada, quem ganhou meu coração foi o Jonas. Pelo que ele viveu, pelo que ele mostrou, pelo que ele teve coragem de dizer.
E pra quem vive o endurance — seja no ciclismo, na corrida ou no triathlon — vale refletir:
Não é só sobre vencer, é sobre como a gente se reconstrói entre uma prova e outra e como a gente se cuida enquanto segue nossos percursos.
Paula Figueira
Psicóloga do Esporte | Triatleta amadora

